| Abordagem do paciente com zumbido
Dra. Guita Stoler
Dra. Raquel Mezzalira
Departamento de Otorrinolaringologia,
Área de
Cirurgia em Cabeça e Pescoço
FCM, Unicamp
Introdução
O zumbido pode ser definido como uma ilusão auditiva, ou seja, uma sensação sonora não relacionada com uma fonte externa de estimulação. É um sintoma que acomete mais de 28 milhões de brasileiros, portanto, suas repercussões sociais e econômicas diretas e indiretas o tornam um problema de saúde pública. Pode ser o único ou o principal sintoma envolvido em várias doenças otológicas, sistêmicas ou psicológicas.1(B), 2(D), 3(B) Por isso, é fundamental considerar o paciente com zumbido de uma maneira mais abrangente, associando dados da avaliação otorrinolaringológica com exames complementares para buscar seu diagnóstico mais definido. Identificar as possíveis causas em cada indivíduo e determinar o tratamento personalizado mais adequado para cada caso têm sido o nosso maior enfoque no atendimento de rotina.
Classificação
A classificação utilizada no ambulatório de otoneurologia da FCM Unicamp divide o zumbido de acordo com sua fonte de origem.4(D)
Zumbidos gerados por estruturas para auditivas;
- De origem vascular: unilateral, pulsátil e acompanha a freqüência cardíaca. Pode ocorrer em más formações arteriais e venosas, em tumores vasculares como os paragangliomas jugular ou jugulo timpânicos e no hum venoso. Geralmente opta-se por acompanhamento do paciente. O tratamento pode ser cirúrgico se houver muito incômodo para o paciente, mas levando-se em conta o risco benefício;
De origem muscular:
- Mioclonia: contração síncrona, rápida e involuntária dos músculos da orelha média ou do palato mole provoca zumbido semelhante a um clique, sem relação com freqüência cardíaca. O tratamento pode ser feito com relaxante muscular, benzodiazepínico, carbamazepina, gabapentina, secção cirúrgica do tendão do músculo de estapédio na mioclonia da orelha média e injeção de toxina botulínica na mioclonia palatal;
- Tuba patente: cóclea detecta um som de estalido interpretado como zumbido, síncrono com a respiração.
Zumbidos gerados por estruturas neurossensoriais: manifestam-se em situações em que ocorre disfunção na cóclea e em todo sistema nervoso auditivo. As principais causas são:
- Causas otológicas: exposição ao ruído, presbiacusia, doença de Menière, otosclerose, surdez súbita, doenças imunomediadas e as otites crônicas;
- Causas cardiovasculares: hipertensão arterial sistêmica, arteriosclerose extensa, anemia, gravidez e tireotoxicose;
- Causas metabólicas: hiperinsulinemia, hipoglicemia, hipertiroidismo, hipotiroidismo, abuso da ingestão da cafeína, deficiência de zinco e de vitaminas sobretudo A e B;
- Causas farmacológicas: ácido acetilsalisílico e seus derivados, antiinflamatórios, anticoncepcionais orais, antibióticos, antidepressivos sobretudo os tricíclicos;
- Causas neurológicas: fratura temporal, trauma em chicote ("whiplash"), esclerose múltipla, epilepsias temporais, tumores, seqüela de meningite e de AVC;
- Causas odontogênicas: disfunção da articulação têmporo-mandibular;
- Causas psicogênicas: ansiedade e a depressão.

Avaliação
A abordagem do zumbido deve partir da idéia de que ele é um sintoma e não uma doença. O ponto de partida é a anamnese que deve ser direcionada e minuciosa, buscando aspectos específicos para o diagnóstico etiológico e avaliando também o impacto do zumbido na vida do paciente. Realiza-se exame físico otorrinolaringológico completo com pesquisa de pares cranianos e observação do palato mole em busca da mioclonia. Além disso, o exame clínico deve incluir medida de pressão arterial, ausculta cardíaca e de carótidas e manobras de movimentação da cabeça. Audiometria tonal e vocal e imitanciometria sempre são realizadas.
A propedêutica complementar vai depender dos dados das etapas anteriores e inclui:
- Exames laboratoriais: hemograma, colesterol total e frações, triglicérides, TSH, T4 livre, glicemia de jejum ou curvas glicêmica e insulinêmica na suspeita de disfunção do metabolismo do açúcar, reações sorológicas para sífilis, provas auto-imunes;
- Vectoeletronistagmografia: para avaliação do aparelho vestibular;
- Eletrococleografia: na suspeita de hidropsia;
- Potencial auditivo de tronco encefálico: suspeita de doença retrococlear;
- Emissões otoacústicas: avaliação da função de células ciliadas externas;
- Doppler de carótidas e vertebrais: na insuficiência vértebro basilar;
- Tomografia computadorizada: otites, otosclerose e malformações de orelha interna;
- Ressonância nuclear magnética: tumores, neurites, doenças do sistema nervoso central como AVC e esclerose múltipla;
- Angiorressonância: tumores vasculares.
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