Boletim FCM  

FCMunicamp

 


ISSN: 2595-9050

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A importância da história para a formação médica

Data de publicação
15 fev 2019

Everardo Duarte Nunes é referencia no Brasil e no exterior na área da sociologia da saúde. Atualmente como professor colaborador do Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, sua atuação no campo da história da saúde e da medicina reflete a importância que ele sempre deu a essa disciplina. De acordo com Everardo, a medicina é um produto social e a história é fundamental para a formação médica.

Incansável pesquisador e estudioso de temas ligados à sociologia da saúde, Everardo concedeu uma entrevista ao Boletim da FCM onde entrelaça a análise histórica ao ensino de medicina, a pesquisa médica e a prática clínica. Iniciando a conversa com a transcrição de um trecho do artigo Medical History in the Medical Schools of the United States, escrito por Henry Sigerist e publicado em 1939 no Bulletin of the History of Medicine:

"O estudo da história não é um luxo. A história determina nossa vida”.

Boletim da FCM – Qual a importância da história da medicina para a formação médica?
Everardo Duarte Nunes – Primeiramente, deve-se dizer que a história é importante não somente para a formação médica, mas para toda formação, desde os cursos básicos à formação universitária.

Boletim da FCM – Por que na maioria dos cursos de medicina no Brasil não há a disciplina sobre a história da medicina?
Everardo Duarte Nunes – Este não é um problema nacional. Em 2014, em visita à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Joel Howell, professor dos departamentos de Medicina Interna, do Departamento de História e do Departamento de Gestão de Saúde e Política e História da Medicina da University of Michigan, apontava que nos Estados Unidos, o campo não estava consolidado, tanto nas discussões das abordagens teóricas, como também, onde localizar a disciplina (se em departamentos específicos de história da medicina ou em departamentos de história). Em relação ao Brasil, não temos dados atualizados sobre o ensino, mas sabe-se da pequena presença nos currículos de medicina.

Boletim da FCM – Isso também não está relacionado à grade curricular dos cursos de Medicina?
Everardo Duarte Nunes – Oficialmente, as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Medicina não fazem qualquer menção à História. Em geral, atribui-se a sobrecarregada carga horária do curso médico a não inclusão de novas disciplinas. Inclua-se o fato de ser incomum a presença de historiadores nos quadros docentes do curso médico.

Boletim da FCM – Existem exemplos exitosos do ensino da história da medicina?
Everardo Duarte Nunes – As escolas médicas que transformaram seus departamentos de Medicina Preventiva e Social em Saúde Coletiva apresentam uma grade curricular que inclui aspectos coletivos e sociais da saúde, doença e adoecimento, mesmo não dando espaço para a questão histórica. Algumas escolas associam a história às humanidades, como por exemplo o Centro de História e Filosofia das Ciências da Saúde (CeHFi), criado em 1999 e que está associado, academicamente, à Escola Paulista de Medicina (EPM) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Outro exemplo vem da Faculdade de Medicina da USP que tem, junto ao Departamento de Medicina Preventiva, a disciplina Medicina e Humanidades.  A disciplina inclui aspectos filosóficos, históricos, sócio antropológicos e psicodinâmicos dos cuidados à saúde.

Boletim da FCM – Com o surgimento de doenças ditas como extintas – febre amarela, dengue, varíola e outras – parece que aflorou o interesse por história da saúde. É isso mesmo?
Everardo Duarte Nunes – Os campos doença e saúde são objetos da pesquisa histórica. O avanço das doenças crônicas abriu um leque de possibilidades de investigações socioantropológicas e históricas.

Boletim da FCMHistória da saúde, história da medicina e sociologia da saúde são complementares ou cada uma desempenha um papel frente ao conhecimento científico?
Everardo Duarte Nunes – São complementares e seria muito bom que isso ocorresse mais frequentemente, numa convergência de interesses comuns teóricos, sociais e práticos. Ressalte-se que cada campo tem sua própria identidade tanto histórica, como social e cognitiva.

Boletim da FCM Você está à frente do Grupo de Estudos História das Ciências da Saúde que completou dez anos. Qual a importância do grupo para o curso de medicina?

Everardo Duarte Nunes A história do grupo sintetiza muito dos dilemas e desafios enfrentados pela História da Medicina. Quando da sua criação, os objetivos do Grupo eram de promover o desenvolvimento de um campo de atividades didáticas, de pesquisa e de extensão relacionado aos estudos históricos das ciências da saúde, de um modo geral e em particular aqueles originados dos interesses da comunidade científica da Faculdade de Ciências Médicas, entendendo que a perspectiva histórica é fundamental para a compreensão das ciências da saúde. Devido a algumas questões de difícil resolução, como a contratação de um professor e a criação ou inclusão de uma nova disciplina no currículo, criamos cursos de extensão gratuitos abertos à comunidade.

Boletim da FCM – E como foi essa experiência?
Everardo Duarte Nunes – Nosso último curso, realizado em 2018, sobre a História da gripe espanhola e outras epidemias reuniu especialistas e teve mais de 100 inscritos. Tivemos também o seminário “O Relatório Flexner 100 anos depois e suas repercussões no Ensino em Saúde que reuniu conferencistas da Unicamp, USP, Unesp e Universidade do Sul da Bahia. Penso que, de forma modesta, mas sempre contando com o apoio da Direção da FCM e muitos professores da Faculdade de Ciências Médicas, Enfermagem, Fonoaudiologia, Centro de Estudos e Pesquisas em Reabilitação, Farmácia, de Institutos da Unicamp e de outras instituições, procurou-se durante esse período garantir a presença da História como campo de conhecimento essencial na formação e pesquisa em saúde.

Boletim da FCM – Como sociólogo da saúde, qual a sua expectativa para a formação de novos médicos?
Everardo Duarte Nunes Insisto que se inclua em sua formação as ciências sociais (sociologia, antropologia, ciência política) não como um anexo, mas como disciplina básica. Quanto a isso, a FCM tem garantido, desde 1965, a presença de cientistas sociais em seu corpo docente, com disciplinas obrigatórias no plano curricular. Mas sempre há possibilidade de inovar.


Everardo Duarte Nunes é graduado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (1960), mestre em Sociologia da Medicina pela University of London (1974) e doutorado em Ciências pela Universidade Estadual de Campinas (1976). Participa do conselho editorial das revistas Physis. Revista de Saúde Coletiva, Revista de Saúde Pública / Journal of Public Health, Ciência & Saúde Coletiva e da Revista Eletrônica de Comunicação, Informação e Inovação em Saúde da Fiocruz. É professor-colaborador do Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp e mantém atividades junto ao programa de pós-graduação em Saúde Coletiva da FCM.