Boletim FCM  

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ISSN: 2595-9050

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Novas e velhas doenças no caminho da saúde do trabalhador

Data de publicação
06 nov 2018

O Brasil é o quarto país em acidente de trabalho no mundo, de acordo com Observatório Digital de Saúde e Segurança do Trabalho, ferramenta desenvolvida pelo Ministério Público do Trabalho em parceria com a Organização Internacional do Trabalho. Entre os afastamentos previdenciários decorrentes desses acidentes estão as doenças osteomusculares e do tecido conjuntivo, mentais e comportamentais, nervosas, e relacionadas aos sistemas digestivo e circulatório.

“O adoecimento relacionado ao trabalho é um evento sentinela, pois onde você encontra um, provavelmente encontrará outros”, diz Márcia Bandini, professora da Área de Saúde do Trabalhador no Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, coordenadora do Programa de Residência de Medicina do Trabalho da faculdade.

De acordo com Márcia, hoje o trabalho está mais intenso, denso e com demanda maior. Devido à tecnologia, os limites entre a vida pessoal e profissional são cada vez mais tênues ou não existem. A autonomia dos indivíduos tem diminuído e o risco do desemprego tem aumentado. Novas doenças associadas ao trabalho têm aparecido e outras continuam entre as principais causas de afastamento.

“Hoje, temos o trabalho na palma da mão. Mas, o processo saúde-doença não é novo. Quem descreveu a primeira doença relacionada ao trabalho foi Hipócrates, por meio de um relato de intoxicação por chumbo”, explica Márcia, que também é presidente da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT) e concedeu entrevista ao Boletim da FCM.

Boletim da FCM – Quais são as causas de adoecimento dos trabalhadores no Brasil?
Márcia Bandini – O Brasil vive o dilema do desenvolvimento. Ao mesmo tempo em que distúrbios musculoesqueléticos, doenças respiratórias, dermatoses e perda auditiva são as principais causas de afastamento relacionado ao trabalho repetitivo e pesado, vemos crescer os transtornos mentais em outras categorias, que é um perfil semelhante ao de países europeus.

Boletim da FCM – Quais as categorias profissionais são mais suscetíveis às doenças e acidentes relacionados ao trabalho?
Márcia Bandini – Usando os dados da Previdência Social, temos em primeiro lugar o setor da construção civil e a indústria de transformação. Os profissionais da saúde também sofrem grande pressão. Esses seguimentos não representam a maior parte dos trabalhadores, pois metade está na área de comércio e serviços, onde a subnotificação e a rotatividade são grandes.

Boletim da FCM – Por que ocorre essa subnotificação?
Márcia Bandini – O empregador tem resistência ao reconhecimento e notificação do acidente de trabalho e os trabalhadores também têm medo de ser identificado como alguém que ficou doente. Em 2015, por exemplo, o número de benefícios no INSS caiu, devido ao risco da perda de emprego. Outra barreira é próprio conhecimento do profissional de saúde que abre a ocorrência. Por exemplo, as doenças de pele relacionadas a produtos irritantes são muito comuns e, frequentemente, não são identificadas. E há, ainda, a dificuldade de fazer a notificação.

Boletim da FCM – Por que é difícil fazer a notificação de acidentes de trabalho no Brasil?
Márcia Bandini – O processo é muito fragmentado. O banco de dados Sistema de Informação de Agravo de Notificação (Sinan) do Ministério da Saúde não conversa com o Sistema de Comunicação de Acidente de Trabalho do INSS. Tudo é muito trabalhoso.

Boletim da FCM – Como notificar os adoecimentos causados por transtornos mentais e psicossociais?
Márcia Bandini – O adoecimento mental é uma conjuntura de fatores. Esse tipo de adoecimento pode ser orgânico, psicossocial ou organizacional. O transtorno mental pode vir de uma intoxicação por metais pesados, por exemplo. Como o estigma está diminuindo, as pessoas estão pedindo ajuda para os tratamentos disponíveis. Isso fez com que o número de casos e afastamentos por essas doenças tenha aumentado na última década.

Boletim da FCM – Quais transtornos mentais são os mais comuns?
Márcia Bandini – Os mais comuns nos trabalhadores em geral são a ansiedade e a depressão. Há também um crescimento nos casos de estresse pós-traumático relacionado à sequestro-relâmpago ou acidentes graves.

Boletim da FCM – Onde estão os riscos para o desencadeamento dessas doenças no ambiente profissional?
Márcia Bandini – Os riscos estão, frequentemente, na falta de planejamento e na organização do trabalho, nos relacionamentos interpessoais, nas comunicações, no acesso a ferramentas para que o funcionário possa exercer adequadamente seu trabalho.

Boletim da FCM – Na área da saúde, quais são as causas de adoecimento e afastamento?
Márcia Bandini – Na área da saúde o nível de pressão é muito grande e os relacionamentos ficam desgastados. Não é incomum que o profissional da saúde conviva com situações de violência verbal e física, tanto por parte dos pacientes quanto por seus colegas de trabalho. Há ainda o risco biológico, perfurocortante, distúrbios musculoesqueléticos e adoecimento mental devido ao convívio diário como sofrimento do outro e as próprias condições de trabalho.

Boletim da FCM – Como prevenir?
Márcia Bandini – O acidente perfurocortante pode estar relacionado à fadiga ou à pressão de tempo. A ergonomia pode diminuir os afastamentos por doenças musculoesqueléticas. Planejamento, tecnologia, equipamento e tempo adequado para o atendimento são boas formas de prevenção.  Acima de tudo, é necessário trabalhar muito no relacionamento interpessoal.

Boletim da FCM – Qual é o papel da medicina do trabalho nisso tudo?
Márcia Bandini – A nossa principal missão é fazer o diagnóstico do fator de risco e prevenir. Quando um coletivo de trabalhadores passa por processos de adoecimento, temos que acolher e cuidar.


Entrevista concedida ao jornalista Edimilson Montalti
Assessoria de Relações Públicas e Imprensa da FCM, Unicamp