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ISSN: 2595-9050

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Bernardino Ramazzini, um médico cada vez mais necessário

Data de publicação
06 nov 2018
ramazzini
Bernardino Ramazzini

Apesar de seus 385 anos de idade – caso vivo estivesse – o médico italiano Bernardino Ramazzini seria muito bem-vindo entre nós, pois muito do que praticou e ensinou aos estudantes de Medicina de três universidades (Modena, Pádua e Veneza) e em seus excelentes textos, não é lembrado e nem praticado nos dias de hoje!

Nascido em Carpi, na Emilia-Romagna, em 4 de outubro de 1633, foi aos 19 anos para a Universidade de Parma, a fim de completar sua formação em Filosofia. Cursou posteriormente Medicina na mesma universidade, onde se graduou em 1659, portanto com pouco mais de 25 anos. Cabe lembrar que na Itália, desde o século XIII, os estudos filosóficos de três anos de duração antecediam, obrigatoriamente, a formação acadêmica e prática do médico.

Sentindo a necessidade de prosseguir seus estudos e ampliar sua experiência prática, Ramazzini fixou-se por alguns anos em Roma, onde, acompanhado de seu mestre Antonio Maria Rossi, trabalhou em diversos hospitais da cidade. Trabalhou, depois, em pequenas comunidades do Lácio. Retornando à Emilia-Romagna, Ramazzini estabeleceu-se como médico prático, em Modena, onde, a partir de 1671, exerceu a profissão em tempo integral, tendo adquirido grande reputação como médico e cientista interessado em temas de Física e áreas afins. A fase de sua vida em Modena vai de 1671 a 1700.

Na procura de cérebros privilegiados e brilhantes para formar os quadros da Universidade de Modena, o Duque Francesco II d’Este, em 1682, convidou

Ramazzini para lecionar na cadeira de Medicina Teórica, e depois de três anos, também na cátedra de Medicina Prática. Então com 49 anos, Ramazzini permaneceu lecionando por longos 19 anos. Foi este, seguramente, o tempo de vida profissional mais profícuo, época em que publicou regularmente inúmeras observações e estudos em vários campos da Medicina e de outras ciências, tanto na forma de artigos como na de livros.

livro
De Morbis Artificum Diatriba

Nesta época, ano acadêmico de 1690 a 1691, Ramazzini inicia no curso médico de Modena, suas aulas sobre a matéria que denominou De Morbis Artificum - as doenças dos trabalhadores. Suas observações e apontamentos de aula, mais tarde constituidores de seu “diatriba” - tratado - que intitulou De Morbis Artificum Diatriba, resultaram da amalgamação de uma sólida bagagem de erudição na literatura histórica, filosófica e médica disponível, com as observações colhidas em visitas a locais de trabalho e em entrevistas com trabalhadores.

Em 1700, ano da publicação em Modena, da primeira edição do De Morbis Artificum Diatriba, aceitou o convite da Universidade de Pádua, fundada em 1222, e que gozava de elevado prestígio na Europa, tendo se tornado, então, um dos maiores centros de ensino médico no mundo. Tinha, então, 67 anos. Em 1706, Ramazzini foi convidado a também lecionar, como “professor visitante”, na Universidade de Veneza, onde poderia ministrar seus cursos em qualquer época do ano.

Ramazzini não parou nunca de trabalhar, de aprender e de ensinar, tendo sido alcançado pela morte, na frente de seus alunos, discípulos e colegas, ao tentar vestir a beca para iniciar mais uma aula. Desfalecido, apoplético e já inconsciente, veio a falecer no mesmo dia, isto é, 5 de novembro de 1714, portanto com a idade de 81 anos, um mês, e um dia.

Destacam-se em sua rica vida e profícua obra algumas contribuições importantes para a História da Medicina, ou melhor, para a História da Saúde, com impacto sobre a saúde dos trabalhadores e trabalhadoras.

Com efeito, como bem assinala George Rosen, Ramazzini estabeleceu ou insinuou alguns dos elementos básicos do conceito de Medicina Social. Estes incluem a necessidade do estudo das relações entre o estado de saúde de uma dada população e suas condições de vida, que são determinadas pela sua posição social; os fatores perniciosos que agem de uma forma particular ou com especial intensidade no grupo, por causa de sua posição social; e os elementos que exercem uma influência deletéria sobre a saúde e impedem o aperfeiçoamento do estado geral de bem-estar.

Ramazzini viveu, praticou e ensinou lições importantes, tais como a importância de atender bem, com dignidade e respeito, todos os trabalhadores, independentemente de sua condição social; o valor da pergunta básica que deveria ser obrigatória “qual a sua profissão?”; a importância da visita aos locais e trabalho; a importância do diálogo com o trabalhador; a abordagem e análise coletiva e comparativa - epidemiológica, portanto - segundo profissão (como proxy de ‘classe social’); as interfaces entre o mundo do trabalho e o meio ambiente vizinho, a saúde das comunidades nos entornos dos locais de trabalho; a ênfase na prevenção, entre outras lições.

Por isso ele é aqui, neste breve texto, o nosso ilustre convidado e homenageado! Apesar de seus 385 anos...


Prof. Dr. René Mendes
Trabalhou na Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, de julho de 1977 a maio de 1991. Exerceu cargos e funções como diretor do Centro de Saúde-Escola de Paulínia (1977) e professor assistente-doutor no Departamento de Medicina Preventiva e Social. Foi o responsável pela criação e desenvolvimento da Área de Saúde do Trabalhador (inicialmente denominada Saúde Ocupacional), que incluiu o ensino na Graduação, o Ambulatório de Doenças Profissionais, Cursos de Especialização e programa de Residência em Medicina do Trabalho, entre outras atividades de ensino, pesquisa e extensão.