Boletim FCM  

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ISSN: 2595-9050

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Historicidade e significados das epidemias

Data de publicação
15 fev 2019

As bactérias, vírus e parasitos acompanham a história do homem há mais de 2 milhões de anos. Velhas pragas, o fantasma das epidemias... esse tema lembra a história de tantos flagelos porque passa a humanidade, marcantes crises sanitárias e momentos de mobilização em busca de sobrevivência e enfrentamento.

Doenças surgem e desaparecem, algumas persistem no tempo, outras reaparecem com expressões diferentes, além de novas enfermidades nunca descritas anteriormente. As epidemias sempre estiveram presentes, porém, se intensificam em épocas de rupturas e crises sociais.

Livro Influenza
Figura extraída do Livro "Influenza, a Medicina Enferma", de Liane Maria Bertucci, Editora Unicamp

Compreender o significado de epidemias passadas em cada contexto histórico tem sido tarefa de muitos historiadores e estudiosos do tema. Trago aqui alguns poucos exemplos destas rupturas e contextos sociais que influenciaram e foram influenciadas por processos epidêmicos.

(Re) Organização social
Desde a pré-história, o controle do fogo e o uso de peles de animais para abrigo do frio propiciaram aos humanos deslocarem-se de planícies e bosques tropicais quentes para novos ambientes, como os bosques do norte, em zonas temperadas. Nestas novas regiões, a riqueza e formas de vida eram menores (diferente da exuberância de bosques e planícies tropicais), que implicava menor variedade de parasitos. Estas vantagens favoreceram o aumento da população diante da maior possibilidade de alimentos. A linguagem e a organização social possibilitavam maior sucesso na caça, e quando esta escasseava, a agricultura permitia o aumento da população. Entretanto, o surgimento de aglomerados ofereceu oportunidades de disseminação de infecções não usuais em épocas anteriores.

Migrações e movimentos
Além de mudanças na organização social, são inúmeros os exemplos de doenças que acompanham os movimentos do homem. A doença meningocócica se espalha com rapidez no Oriente Médio e África, trazida após a peregrinação anual para Meca. A disseminação do HIV foi investigada em 1920, partindo de Kinshasa (capital e a maior cidade da República Democrática do Congo) para cidades vizinhas, por migração e trânsito de pessoas. O surgimento do sarampo no Brasil, a partir dos migrantes venezuelanos é outro evento mais recente.

Guerras e invasões
Uma das mais fortes lembranças de guerras associadas à circulação de epidemias foram as Cruzadas, expedições militares realizadas durante a Idade Média (Guerra Santa) por motivos religiosos, políticos e econômicos. De volta à Europa, em sua última investida, em 1260, cavaleiros derrotados no norte da África, acometidos por uma epidemia de peste bubônica, trouxeram a doença para cidades europeias. Outro exemplo emblemático foi a retirada da "Grand Armée" de Napoleão Bonaparte, após o cerco a Moscou, em 1812. As tropas foram acometidas pelo frio intenso e pelo tifo clássico. A doença bacteriana (Rickettsia prowazekii), transmitida por piolhos, comuns em trincheiras e em prisioneiros, foi a causa de grande mortalidade em outras situações de guerra. A gripe espanhola, causada pelo vírus Influenza A H1N1, também circulou em trincheiras da I Guerra Mundial e se espalhou pelo planeta. A disseminação da infecção pelo HIV-Aids foi associada, por muitos pesquisadores, a conflitos armados na África Central. De origem zoonótica, o HIV teria passado para a espécie humana em populações rurais remotas e se disseminado com os grandes deslocamentos populacionais decorrentes de guerras naquela região. O aumento da transmissão HIV-2, na Guiné Bissau, coincidiu com a guerra de libertação de Portugal (1962-1974).

zika
Edição de 2016 abordou a epidemia de zika vírus

Comércio e intercâmbios
O comércio que floresceu durante o Império Romano marcou o crescente contato entre Índia, Sudeste Asiático, Sri Lanka, China, Oriente Médio, África e Europa. Um dos produtos mais valorizados pelos romanos era a seda chinesa. A rota da seda estabeleceu-se, definitivamente, no primeiro século da era cristã, ligando o oeste da China com o Mediterrâneo, atravessando o leste europeu até Veneza. Caravanas terrestres e barcos mercantes facilitaram a circulação da peste bubônica e seus hospedeiros entre os
continentes. Além da peste, as “doenças próprias da infância”, comuns no Oriente, provocaram calamidades epidêmicas de grande vulto no Mediterrâneo e na China. Não se tem muita informação sobre a China, porém, no Mediterrâneo, especialmente em Roma, no século II da era cristã, a chegada da varíola oriunda da Mesopotâmia teve grande impacto sobre o Império Romano, enfraquecendo-o. Enfermidades como difteria, disenteria e tuberculose também circularam nos portos do Mediterrâneo. Doenças que acometem crianças apresentam menor impacto na demografia quando comparadas com as que atacam a população adulta sem imunidade, como ocorreu com a peste que se disseminou no mundo romano (252-266 d.C.), com uma média de 5.000 mortes por dia, em Roma. 

Expansão de novas fronteiras
A chegada dos europeus na América talvez seja a ocorrência mais conhecida para exemplificar a tragédia epidemiológica que invadiu os povos pré-colombianos, inicialmente no México e Peru, quando estes entraram em contato com as “doenças próprias da infância”, trazidas pelos europeus. Destacam-se principalmente o sarampo e a varíola, mas outras como gripe, tuberculose, difteria foram igualmente importantes. No mesmo período, a sífilis, provavelmente advinda das Américas, circulou rapidamente e com grande virulência, nas cidades europeias, no século XVI.

A urbanização e a degradação ambiental
A ocupação de espaços silvestres e a urbanização têm inferido características às doenças infecciosas de forma marcante. Parasitos, hospedeiros e vetores se adaptaram ao ambiente urbano, imprimindo novas feições a velhas endemias e epidemias. A ocorrência de esquistossomose, malária, febre maculosa e leishmanioses, nas periferias das cidades, exigem novas abordagens e adaptações das ações de controle. Doenças emergentes como arboviroses ao redor do mundo, tal qual o ebola vírus, na África Ocidental, são alguns exemplos.

Cabe ressaltar que as concepções sobre as epidemias também se modificam na história da humanidade. Das explicações hipocráticas às explicações religiosas da Idade Média, no século XVIII e XIX, ao embate entre o contagionismo e os miasmas, até os modelos ecológicos e às relações das doenças com as condições de vida e trabalho. As ideias sobre as epidemias acompanham o percurso da história e refletem a compreensão da humanidade a cerca da vida, da natureza e da sociedade, influenciando as formas de intervenção em cada época.

Como afirma Michel Foucault, depreende-se que o processo epidêmico é um fenômeno coletivo, socialmente determinado e portador de uma singularidade histórica, e que apresenta diversas expressões sociais, biológicas e epidemiológicas em cada contexto social, econômico, cultural e político.


Profa. Dra. Maria Rita Donalisio Cordeiro
Professora titular e orientadora na Pós-graduação em Saúde Coletiva da FCM. Tem experiência na área de Saúde Coletiva, com ênfase em Epidemiologia de Doenças Infecciosas, atuando principalmente nos seguintes temas: zoonoses, HIV, arboviroses, infecções respiratórias. É bolsista Produtividade CNPQ-2, desde 2003.