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ISSN: 2595-9050

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A redescoberta da medicina natural de Hildegarda de Bingen, doutora da Igreja do século XII

Data de publicação
15 out 2018

Em 17 de setembro de 1179, no silêncio do convento de Rupertsberg, falecia a abadessa Hildegarda de Bingen. Tinha 81 anos e sua extensa e laboriosa vida correu quase todo o século XII em múltiplas atividades: teóloga, naturalista, terapeuta, compositora, pregadora, musicista, poeta e dramaturga, superando os limites de sua saúde frágil desde a infância. Seu último ano de vida foi amargurado com a interdição a seu mosteiro de celebrar missa e cânticos sacros, por supostamente ter afrontado uma regra eclesiástica. Seu túmulo tornou-se centro de peregrinações de milhares de fiéis que a consideravam santa. Todavia, sua santidade só foi oficializada em 2012 pelo seu conterrâneo papa Bento XVI, que também a nomeou “doutora da Igreja”.

O mais surpreendente aspecto é sua particular cosmologia, que integra o homem à natureza e a Deus, superando a dicotomia corpo-alma que balizava a Igreja Católica desde Santo Agostinho. E mais surpreendente ainda, a valorização da mulher, negando a traição de Eva e considerando homem e mulher interligados, um produto do outro. O próprio Deus foi descrito muitas vezes como uma mãe amamentando a Criação e velando por sua progênie.  Essa interpretação não significou um confronto direto com a ortodoxia dogmática do Cristianismo; ela manteve um conservadorismo em tudo o que era essencial.

Como naturalista, descreveu minuciosamente inúmeras plantas medicinais e nutritivas. Denominava viriditas a força vital, o frescor da vida, a constante vitalidade, expressa no verde da vegetação, que contrapõe à ariditas, a aridez que, segundo afirma, advém da vingança de Deus, em função da “traição” ou separação em relação a Ele.

Propunha métodos de cura natural com inúmeras plantas, a prática regular do jejum e orientações higiênico-dietéticas, registrados em dois volumes: Physica (Liber simplicis medicinae) e Causae et curae (Liber compositae medicinae). Considerava as doenças consequências do pecado original, da perda da harmonia e moderação primitivas e da desintegração entre Criador, natureza e criatura. “Saúde é harmonia entre corpo, alma e espírito”, dizia Hildegarda de Bingen.

Resumia sua terapêutica em “Cinco Pilares”: Nutrir a alma; Nutrir o corpo; Viver saudavelmente (exercícios, vida ao ar livre, bons hábitos, amizades, família); Reforçar a imunidade (elixires, repouso, evitar produtos químicos, vinho, shitake); e Desintoxicação regular (limpeza intestinal, jejum, calêndula, sangrias e ventosas).

Às suas receitas terapêuticas denominava “Maravilhas do Senhor”, dizendo-se inspirada diretamente pelo Criador. Seus “alimentos da alegria” eram o funcho, o espelta (um tipo de trigo antigo), castanhas, marmelo, amêndoas e muitas especiarias como a canela, a noz moscada, o tomilho e o cravo da índia os quais preconizava consumir regularmente – alimentos ricos em vitamina B12 e magnésio.

O jejum era mais uma dieta revitalizante e desintoxicante praticada por duas ou três semanas. Consistia basicamente de uma sopa de espelta e legumes, condimentada com tomilho, camomila e galanga ao meio-dia, chás e sucos de frutas pela manhã e à noite. A utilidade terapêutica do jejum tem sido confirmada em inúmeras comunicações científicas atuais.

hildegarda
Retrato de Hildegarda no Liber scivias Domini

Apregoava que todo excesso alimentar intoxica o organismo e produz tristeza. “A alegria está na sobriedade e pureza da alma e dos nutrientes”, dizia. Cada alimento era mais ou menos aconselhado segundo o estado de saúde, classificados em quente, frio, seco ou úmido, e ainda, se bom para todos, só para sadios, só para os doentes ou nem para sadios nem para doentes, sempre atribuindo o resultado da intervenção terapêutica à vontade divina.

Segundo especialistas, demonstrava conhecer Hipócrates e Galeno, as práticas árabes, as obras de Plínio, o Velho e Isidoro de Sevilha, a teorias dos temperamentos, dos fluidos corporais e dos humores, e também princípios da medicina chinesa. Entretanto, fez muitas observações originais e inventou diversas terapias novas. Algumas das práticas terapêuticas que descreveu têm interesse apenas histórico, mas outras foram confirmadas pela ciência e são empregadas largamente, ainda hoje.

Não se sabe como adquiriu esse conhecimento; sua atividade como médica foi toda informal e provavelmente autodidata. O estudo e a prática da medicina eram vedados às mulheres. Pode ter recebido uma base terapêutica prática com a superiora e os monges durante seu noviciado. Os beneditinos têm por lema Ora e labora e se caracterizam pela dedicação ao conhecimento e a assistência aos doentes.

Com franqueza inédita para sua época, abordou a sexualidade e suas disfunções. Via o ato sexual e o prazer positivamente, comparando-os à música e o corpo humano a um instrumento musical, mas condenava a luxúria com veemência. Em Causas e curas a sexualidade é largamente desenvolvida e ligada à noção de equilíbrio e saúde. Recusava a ideia que o prazer feminino não é necessário e seja ocasional.  “O prazer e o coito não permitem somente a reprodução, são condições indispensáveis para que o homem e a mulher se tornem inteiros”, considerava.

Em suas frequentes e tormentosas crises de enxaqueca tinha incríveis visões, as quais descrevia minuciosamente ao seu secretário, o monge Volmar, que as traduzia em desenhos de intenso conteúdo simbólico e teológico. Musicista inspirada, compôs em torno de 70 peças, e produziu um salto evolutivo no canto gregoriano. Para ela, que tinha uma bela voz, a música, especialmente o canto, era o encontro com o divino e servia à evangelização, à terapêutica e à elevação espiritual.

Sua obra permaneceu obscura ao grande público até a metade do século XX, quando foi redescoberta por Wighard Strehlow e Gottfried Hertzka. Atualmente, grupos dedicados a estudos de sua medicina natural e teologia se reúnem na Alemanha e na França, com curso na Sorbonne e congressos anuais, bem como na Bélgica, na Espanha, Argentina e outros, onde existem clínicas especializadas realizando tratamentos segundo suas orientações.


Clarissa W Mendes Nogueira, professora aposentada do Departamento de Tocoginecologia e membro do Grupo de Estudos História das Ciências da Saúde da FCM