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ISSN: 2595-9050

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Qualidade de vida de idosos cuidadores de idosos com AVC e demência

Data de publicação
08 out 2018

As mudanças epidemiológicas que acompanham o envelhecimento das populações têm como característica o crescimento da proporção de idosos com doenças crônico-degenerativas. Entre elas estão os acidentes vasculares cerebrais (AVC) e as demências de várias etiologias. Em todo o mundo, os cuidados a idosos dependentes são de responsabilidade quase que exclusiva da família. É uma tarefa desempenhada, majoritariamente, por mulheres, as quais 70% são cônjuges ou filhas dos idosos. O cuidado de idosos por homens é evento mais raro, apesar de haver uma tendência de aumento em virtude das mudanças demográficas e econômicas em curso em vários países, como o Brasil.

A responsabilidade pelo cuidado é comumente exercida por apenas um membro da família e isso expõe essa pessoa a maior risco de desenvolver morbidades físicas e psicológicas do que indivíduos não cuidadores. A sobrecarga pode ser determinada pelo impacto emocional das responsabilidades do cuidado, pelas modificações de hábitos e rotinas do cotidiano e pelos custos relacionados à saúde. Relaciona-se também com fatores do ambiente social e familiar, como a carga financeira, a insônia e a percepções negativas de qualidade de vida.

Estudo conduzido dentro do programa de pós-graduação em Gerontologia da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp por Julimar Fernandes de Oliveira procurou analisar a qualidade de vida percebida por idosos cuidadores de parentes idosos com demência ou acidente vascular cerebral (AVC). A orientação foi de Meire Cachioni, professora do programa de pós-graduação em Gerontologia.

“Se o cuidador está sem a preparação, conhecimento ou suporte adequado para exercer o cuidar, pode sofrer diferentes consequências na sua qualidade de vida e em suas condições de saúde. Compreender a qualidade de vida do idoso cuidador de uma pessoa com demência ou AVC é uma oportunidade de entender o bem-estar dos indivíduos e das sociedades, além dos múltiplos modos do comportamento, entre eles a auto percepção de prazer e satisfação com a vida que inclui as condições de saúde, suporte social e status socioeconômico do cuidador familiar”, explica Julimar.idosa

Os dados que deram origem à pesquisa foram obtidos durante os anos de 2014 a 2015 e estão contidos na base eletrônica de outra pesquisa denominada Bem-estar psicológico de idosos que cuidam de outros idosos no contexto da família, que contou com amostra de conveniência de 148 participantes, todos idosos com 60 anos ou mais. Trata-se de um estudo de corte transversal, descritivo e analítico, composto por componentes quantitativos. Foram analisados dados coletados em entrevistas dirigidas a idosos cuidadores de idosos. Para construir essa base de dados, todos os entrevistados responderam o questionário Cognitive Abilities Screening Instrument - Short Form (CASI-S).

Para este estudo, foram selecionados 45 idosos que cuidavam de outros idosos com demência e 30 idosos que cuidavam de idosos com AVC, formando-se assim um total de 75 idosos cuidadores de outros idosos. Entre os 75 participantes, 81,3% eram mulheres. Na amostra total, 30,6% tinham de 60 a 64 anos; 44% tinham entre 65 e 74 anos e 25,4% tinham 75 anos ou mais. Entrevistadores treinados coletaram dados nos domicílios dos cuidadores, em consultórios médicos privados e no ambulatório de Geriatria de um hospital universitário.

De acordo com a pesquisa, não foram observadas diferenças estatisticamente significativas entre as frequências de cuidadores de idosos com demências e com AVC. Entretanto, houve maior frequência de cuidadores de idosos com AVC com alto nível de dependência física. Houve maior proporção de cuidadores de idosos com demências do que cuidadores de idosos com AVC, que apresentavam baixo nível de dependência física.

Uma característica marcante na pesquisa foram os altos níveis de sobrecarga, ao influenciarem a piora na percepção da qualidade de vida em todos os domínios: controle, autonomia, prazer e realização. Mas, de acordo com o estudo, não houve efeitos negativos na qualidade de vida ao se considerar as variáveis sociodemográficas de idade e o gênero do cuidador ou o nível de dependência dos alvos de cuidados.

“Além disso, o alvo do cuidado ter, como doença AVC ou demência contribui de maneira similar nas percepções da qualidade de vida do idoso cuidador, seja ela positiva ou negativa”, explica Julimar.

O pesquisador ressalta que este estudo contempla uma melhor compressão da percepção da qualidade de vida de idosos cuidadores visto que, os estudos atuais são com indivíduos jovens ou em sua grande maioria provenientes de países americanos e europeus. Como há aspectos característicos brasileiros, tais como a cultura e economia, há também, particularidades do idoso cuidador no Brasil, denotando a importância de compreender como se dá o bem-estar psicológico desse grupo.

“Há necessidade de se considerar que idosos, enquanto cuidadores, serão em grande número em um futuro próximo, visto o envelhecimento populacional rápido e expressivo da atualidade. Isso trará novas perspectivas de cuidado e novos desafios aos profissionais de saúde, bem como uma revisão nas políticas públicas de assistência a saúde. Assim, é inevitável criar projetos capazes de aperfeiçoar o cuidado com orientações adequadas a realidade do idoso cuidador e atividades psicoeducativas aos cuidadores, para que eles mantenham uma apropriada condição de saúde física e mental”, orienta o pesquisador da FCM.


Título: Qualidade de vida percebida por idosos cuidadores de parentes idosos com demência ou acidente vascular cerebral (AVC)

Autor: Julimar Fernandes de Oliveira
Orientadora: Meire Cachioni
Área: Pós-graduação em Gerontologia

Texto: Edimilson Montalti
Assessoria de Relações Públicas e Imprensa, FCM, Unicamp