Herling Alonzo recebe prêmio por contribuições à saúde ambiental

Enviado por Edimilson Montalti em seg, 16/12/2019 - 10:52

Degradação do meio ambiente vai piorar a saúde das pessoas, alerta especialista

Herling Gregorio Aguillar Alonzo, professor e pesquisador do Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, foi premiado por seus 20 anos de contribuição para a Vigilância em Saúde Ambiental. A premiação aconteceu no dia 20 de novembro, em Brasília, durante o durante o II Seminário Nacional de Vigilância em Saúde Ambiental promovido pelo Ministério da Saúde, por meio da Coordenação Geral de Vigilância em Saúde Ambiental (CGVAM). Veja aqui o prêmio.

“Minha vida profissional foi para além da medicina. Eu me virei para a situação ambiental há mais de 30 anos e eu acho que consegui mostrar essa paixão e essa entrega pessoal. Esse prêmio me fez refletir e posso dizer, tranquilamente, que eu fiz e faço alguma coisa pela questão da saúde ambiental do Brasil”, diz Alonzo.

Herling Alonzo começou a trabalhar na saúde ambiental no final da década de 1980. Em seguida, começou a estudar a toxicologia clínica e ambiental, área em que vem concentrando seus estudos, pesquisas e ações de capacitação para profissionais do Sistema Único de Saúde (SUS). Já viajou para diversas cidades do Brasil discutindo a saúde ambiental, participou de eventos científicos e formou equipes de saúde para reconhecerem como os problemas ambientais adoecem as pessoas.

“A saúde ambiental não é apenas a poluição do ar, a questão do esgoto ou o lixo doméstico. O aumento da violência, das mortes por causas externas, os problemas de saúde mental, a angústia, a ansiedade, o desgaste físico e o assédio, o uso de agrotóxicos e até o lixo espacial, tudo isso é saúde ambiental. A organização da cidade e dos espaços onde vivemos tem um forte impacto na saúde das pessoas”, explica.

Ainda segundo Herling, existe na literatura internacional dados que demonstram o efeito da contaminação e da poluição na saúde humana associados ao aumento do câncer, de problemas imunológicos e respiratórios e vários outros efeitos. Para ele, os efeitos da degradação do meio ambiente causado pela ação do homem vai piorar a saúde da população nos próximos anos. Por isso, sua proposta é construir, dentro do SUS, uma política de redução de danos.

“O conceito de redução de danos é amplamente usado na saúde mental e nas drogas. O Brasil é o único país do mundo que tem um sistema universal público gratuito de saúde que tem estruturada uma política pública de saúde ambiental. Nenhum outro país do mundo tem isso. O processo de degradação hoje presente no mundo é de uma dimensão tão gigantesca que coloca em risco é a própria sobrevivência da humanidade”, alerta.

Apesar da expectativa de vida ter aumentado e da tecnologia ter trazido um certo conforto para as pessoas, segundo Herling a carga de poluentes no organismo também aumentou a partir da concentração de substâncias químicas naturais associadas às substâncias sintéticas produzidas pelo homem. Entre as causas, pontua, estão o atual modelo econômico e agrícola, o consumo indiscriminado e irracional e o modelo educacional brasileiro que não fomenta a criticidade dos alunos.

“O resíduo de agrotóxico que temos hoje no organismo não se compara com a carga de 15, 20, 30 e 40 atrás. Isso tem um impacto. Tem doenças que estão mudando o perfil etário. Há casos de câncer e neurocomportamental em menores de 15 anos. Temos dados. A grande questão colocada no mundo é como diminuir a exposição química causada pelo próprio homem”, pontua.

Ainda de acordo com Herling, existe um processo de degradação das relações sociais e ambiental fortemente causado pela inovação. “Muitos dos processos que levaram a grandes desastres ambientais foram por inovações. Os agrotóxicos foram inovação e, agora, estamos com resíduos no organismo e com efeitos crônicos de longo prazo”, afirma.

Herling destaca que não será possível resolver os problemas de saúde ambiental apenas com a política do SUS. Segundo o pesquisador da FCM, é necessário outras políticas juntas, como a econômica e do meio ambiente. As experiências bem-sucedidas apresentadas durante II Seminário Nacional de Vigilância em Saúde Ambiental foram uma amostra do trabalho executado durante esses 20 anos e que podem nortear e aprimorar as políticas públicas de saúde.

“As respostas vão ser encontradas pelos profissionais, aqui, no Brasil. Podemos usar referências internacionais, mas somos singulares. A forma como temos que trabalhar é singular. Não são os estrangeiros que vão dizer para nós, por exemplo, como lidar com pessoas expostas ao mercúrio ou com a poluição do ar. O país tem que construir isso. Individualmente, podemos fazer a nossa parte, mas é tudo paliativo. O que temos que fazer, na realidade, é defender o SUS e pensar numa nova forma de viver”, reforça Herling.