A saúde e a educação no contexto das práticas despatologizantes

Com mesas de debate e trabalhos acadêmicos, o “VI Encontro Práticas Despatologizantes: quando se pensa a relação saúde-educação” aconteceu nessa terça-feira (14), no auditório da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp. O evento foi organizado pelo Conselho Regional de Psicologia (CRP) e pelo Movimento de Despatologização da Vida (Despatologiza) e reuniu pesquisadores, gestores públicos e profissionais de saúde e educação, com o objetivo de pensar práticas de atuação que visem condutas desmedicalizantes e despatologizantes.

O encontro contou, ainda, com o apoio do Sindicato de Psicólogos de São Paulo (SinPsi), do Sindicato dos Médicos de Campinas e Região (SindiMed) e da Rede Municipal da Criança e do Adolescente do Município de Campinas.

Durante a mesa de abertura do evento, a psicóloga Suely Castaldi Ortiz da Silva compartilhou a sua experiência profissional com temas ligados à medicalização e patologização da vida. Tendo atuado em redes municipais de ensino ela é agora membro da comissão gestora do Conselho Regional de Psicologia (CRP). Ela comentou sobre o papel das instituições de saúde e educação na perpetuação de práticas medicalizantes e patologizantes.

“A educação faz a parte dela [contribuindo com a medicalização/patologização] quando não questiona situações, não percebe a criança de fato, e já a encaminha ao médico, como alguém hiperativo ou com algum tipo de transtorno. Na saúde a situação é outra [não menos preocupante]. A família já chega com a criança diagnosticada e medicada”, disse Suely.

A partir da sua experiência no CRP e na rede municipal de ensino, Suely pontuou a necessidade de desconstruir algumas práticas profissionais. “Na educação, trabalhava para convencer os educadores a pensar a situação de outro jeito. Já no Conselho, atuo ao lado de coordenadores de cursos de psicologia e de movimentos como o Despatologiza, que ajudam a pensar essas questões”.

O médico sanitarista e vereador do município de Campinas, Pedro Tourinho, disse que há vários anos a cidade tenta aproximar profissionais de diversos campos da saúde e da educação, para refletirem sobre práticas cotidianas que medicalizam comportamentos, processos fisiológicos e sociais, e que não deveriam ser encaminhados do ponto de vista patológico. “A mudança dessas práticas tem que se dar a partir de uma frente ampla de ação, que envolva os espaços de formação, de formulação de políticas públicas, e uma série de organizações e instituições da sociedade civil, e que, evidentemente, penetre o universo da produção acadêmica e do saber”, disse.

De acordo com a psicóloga Rosângela Villar, da Rede Municipal da Criança e do Adolescente do município de Campinas, uma das lições apreendidas pela rede municipal de saúde a partir de um planejamento estratégico, realizado em 2010, foi o enfrentamento da medicalização de crianças e adolescentes.

“Esse é um fenômeno importante e crescente. A criatividade das pessoas de achar que crianças e adolescentes precisam de medicação não para. Na verdade, elas precisam viver e não tomar remédio. Temos que deixar os remédios para as situações em que há necessidade, e não para a rotina do dia a dia. Quando aprendemos essa lição, todos os encontros mensais da Rede passaram a considerar essa temática”, afirmou.