Convivendo com a Incontinência Urinária

Português, Brasil
Disciplina de Urologia, FCM – UNICAMP

Paciente de 56 anos, do sexo feminina com incontinência urinária desde a infância. Apresentava padrão de perda contínua de urina, sem relação com esforço ou sintoma de urgência.

Refere piora dos sintomas após partos que foram por via vaginal sendo o último há 35 anos.

A pacietne convivia com 3 absorventes por dia. Considerava como perda “moderada”. Duarante a noite também apresentava incontinência urinária e não apresentava outros sintomas urinários.

Antecedentes pessoais

G7P7C0A0, foi submetida a colporrafia anterior há 15 anos devido o quadro de incontinência urinária sem sucesso. Não apresentava outras comorbidades.

 

Exame Físico

BEG, corada, hidratada, eutrófica 
Abdome: flácido, indolor, não tumors palpáveis. 
Vagina trófica, cistocele grau 1 
Teste de esforço negativo. 
 

Investigação

Hemograma: Leucócitos: 7780 cel/mL / Hb 13,5 g/dL / Plaquetas: 330.000 cel/mL 
Ureia: 44 mg/dL 
Creatinina: 0,82 mg/dL 
Glicemia de jejum: 91 mg/dL 
Urina I: Leucocitúrica 
Urinocultura: E. coli. 
Antibiograma: Multissensível.

 

Avaliação Urodinâmica (Fig.1 e 2): solicitado pela hipótese de incontinência urinária mista

Cistometria: 
   Sensibilidade: normal 
   Complacência: normal 
   Capacidade cistométrica máxima: 320ml 
   Ausência de contração do detrusor na fase de enchimento vesical.

- Pressão / Fluxo: 
   Qmax: 12ml/s 
   PdetQmax: 19cmH2O 
   Volume urinado: 315ml 
   Resíduo: desprezível

 


Figura 1 - Fluxometria normal

 


Figura 2 - Avaliação urodinâmica normal

 

 

3. Ultrassom do abdome (Fig. 3): exame normal.

 


Figura 3 -  Ultrassom do abdomen demosntrando imagens renais sem alterações.

 

Após avaliação inicial normal, paciente manteve incontinência urinária.
Feito hipótese diagnóstica de implantação ectópica de ureter e solicitado tomografia computadorizada de abdome.

 

4. Uro-Tomografia (Fig. 4 e 5)

Duplicidade piélica e ureteral (completa) à direita com atrofia da unidade superior.
Provável implantação ectópica do ureter da unidade superior.

 


Figura 4 - Unidade superior do rim direito atrófico ( Seta)

 


Figura 5 - Unidade superior do rim direito atrófica (seta) 

 

Solicitado cintilografia renal (DMSA) para avaliação da função da unidade superior.

 

5.Cintilografia renal (DMSA)

Função relativa: 
- Rim direito: 46% 
- Rim esquerdo: 54% 

            - Sinais cintilográficos de exclusão funcional da unidade superior do rim direito.

 

Conduta

Com diagnóstico de duplicação completa do rim direito e unidade superior sem função foi optado por realizar ressecção da unidade superior do rim direito (Fig.6).

 


Figura 6 - Peça cirúrgica

 

Evolução

Paciente evolui completamente seca no primeiro dia de pós operatório, sem queixas miccionais.

 

 

Comentário editorial: 

A primeira pergunta que fazemos é como essa paciente esperou tanto tempo para ser tratada ?  Alguns pontos devem ser analisados: quando criança a enurese mono sintomática ou não monosintomatica pode ser retardada o tratamento por desconforto pequeno ou  moderado, pelos pais que consideram que vai melhorar com a idade e por desconhecimento.  Outro fator a ser salientado é que a paciente com 21 anos já tinha sete filhos sem tempo para reclamar.  

Outra questão é que a paciente foi procurar resolver seu problema e foi inclusive operada, mas sem sucesso.  Finalmente,  só foi possível fazer o diagnóstico porque o colega que acompanhou a paciente pensou no diagnóstico de ureter ectópico e não ficou satisfeito com diagnóstico de ultrassom normal e solicitou urotomografia que confirmou o diagnostico.  A mensagem desse caso é que devemos escutar, acreditar nas queixas do paciente e que as vezes ele tem muita dificuldade de procurar atendimento médico.

Dr. Carlos D’Ancona
Professor Titular de Urologia
FCM - UNICAMP