Laboratório de Pesquisa Clínico-Qualitativa da FCM celebra 25 anos

Enviado por Camila Delmondes em Ter, 29/03/2022 - 21:43

No dia 17 de março, o Laboratório de Pesquisa Clínico-Qualitativa (LPCQ), da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, celebrou o seu Jubileu de Prata, em evento on-line transmitido ao vivo no Canal da FCM no Youtube. O evento foi coordenado pelo professor titular do Departamento de Psiquiatria, fundador e coordenador do LPQC, Egberto Ribeiro Turato.

Na abertura da programação, Turato falou sobre a história de criação do LPCQ, que começou de forma embrionária, em meados de 1997, ocasião em que o mesmo reconheceu-se como pesquisador qualitativista após ter realizado seu doutorado com pesquisa quantitativa, a partir da caracterização populacional com Histórias de Vida de pacientes com Infarto do Miocárdio recente e grupo controle de pacientes hospitalizados sem manifestações cardiológicas. “Tivemos como marco inicial, a decisão de realizar orientação em grupo dos alunos de pós-graduação, conferindo sentido coparticipativo na produção”, disse.

Ao longo da trajetória de 25 anos, Turato disse que o LPCQ somou-se aos estudos introdutórios, sistematizados, e de conceitos gerais da pesquisa qualitativa, presentes na obra da Maria Cecília de Souza Minayo, pesquisadora da Fiocruz, considerada pelos pesquisadoras da área, a papisa da pesquisa ‘quali’ do Brasil. “O grupo também recebeu influência da produção em livros e artigos norte-americanos de Janice Morse e colegas, e da destacada Enfermagem, a área da Saúde mais praticante de métodos qualitativos”, acrescentou.

Ainda de acordo com Turato, após os primeiros cinco anos de criação, o LPCQ consolidava-se no cenário nacional com a publicação do “Tratado da Metodologia da Pesquisa Clínico-Qualitativa”, que atualmente, em sua 6ª edição, conta com mais de 2,7 mil citações na plataforma Google Scholar. O pesquisador conta, também, que na fase gestacional do grupo, a solidificação de uma proposta metodológica inovadoraproporcionou um corte conceitual nos métodos qualitativos disponíveis à epoca na literatura e nas universidades.

“Percebíamos uma lacuna na literatura existente no movimento qualitativista, então propusemos um casamento entre os estudos clínicos psicanalíticos, a busca das significações simbólicas de fenômenos vivenciados, e as experiências particularmente tidas em settings dos manejos emocionais dos processos do adoecimento e dos cuidados terapêuticos e preventivos”, comentou.

Foi assim que – segundo explicou Turato em sua fala de abertura – a expressão “clínico-qualitativa” passou a designar a migração e o refinamento da concepção genérica de Ciências Humanas aplicadas na compreensão da dinâmica da clínica assistencial dos profissionais da saúde, incluindo pacientes e família. “O suporte teórico do LPCQ foi herança da disciplina da tradicional Psicologia Médica britânica, ministrada com apoio na psicodinâmica freudiana. Seu theoretical framework fundamenta-se nas obras do médico e psicanalista húngaro-britânico Michel Balint”, argumentou o docente da FCM.

Na atualidade, o LPCQ é uma referência no campo das pesquisas ‘quali’, respondendo com uma produção científica advinda de mais de 40 pesquisas de mestrado e doutorado até hoje defendidas, e mais de 40 iniciações científicas e pós-doutorados concluídos, e cerca de uma centena de artigos publicados em periódicos de impacto para leitores das áreas biomédicas e clínicas, e centenas de apresentações em congressos nacionais e internacionais. “Hoje, mantemos parcerias com áreas médicas de Psiquiatria, Oncologia, Obstetrícia, Endocrinologia e Geriatria, em que se realização uma investigação humanística”. Vide dados do grupo no Diretório do CNPq.

Mesas-redondas

Duas mesas-redondas focadas nas interfaces entre Pesquisas Qualitativas, Psicologia Médica e da Saúde, e o Ensino sobre Relações Psicodinâmicas Interpessoais na Clínica, voltadas a estudantes de Medicina e a mestrandos e doutorandos de profissões assistenciais, marcaram o evento.

Intitulada ‘Pesquisas Qualitativas Construídas na Psicologia Médica e da Saúde’, a Mesa-redonda 1, realizada no período da manhã, contou com a participação de quatro pesquisadoras qualitativistas,  que relataram suas experiências acadêmicas em pesquisa-ensino em suas instituições de origem:

Professora da UFRJ, Alicia Regina Navarro Dias de Souza, relatou sua trajetória no ensino da Psicologia Médica a alunos de Medicina na UFRJ, com enfoque na chamada História da Pessoa nas condições de doença, e que compartilhou aulas com antropólogos. A experiência da pesquisadora com o roteiro semiestruturado ‘McGill Narrativa de Adoecimento’ foi marcante, ressaltando a relevância da experiência com pesquisadores de outros países em rede.

Docente da Unifesp, Fernanda Gonçalves Moreira, por sua vez, apontou a busca pela transmissão de ‘sentido’ ao ensino de Psicologia Médica na graduação de Medicina da Unifesp. Na ocasião de sua fala, ela mencionou a construção de personagens ficcionais, uma atividade baseada na Medicina Narrativa, tendo levado à interessante polissemia na recepção pelos alunos.

Stella Regina Taquette, professora da UERJ, disse que da prática clínica emergem problemas para serem investigados cientificamente na abordagem qualitativa. Comentou que poucos médicos conhecem o método qualitativo, conforme levantamento que realizou por questionários. Comprovou que está praticamente ausente nos currículos de medicina, sugerindo então ampliar o ensino de disciplinas das ciências humanas e dar oportunidades já a graduandos em pesquisas qualitativas.

Por último, Sabrina Stefanello, docente da UFPR, disse que os estudantes do curso médico da sua instituição têm pouco conhecimento do método ‘quali’ quando comparados a alunos de mestrado, como os da pós-graduação em Saúde Coletiva.

No período da tarde, a Mesa-redonda 2, intitulada ‘Momentos Definidores do Método Clínico-Qualitativo (MCQ)’, contou com relatos de experiência de predecessores e egressos do LPCQ, sobre os antecedentes do método na experiência com estudos clínicos psicodinâmicos em temas médicos. Professor titular do Departamento de Psiquiatria da FCM, Roosevelt M. S. Cassorla demarcou as reflexões da Mesa. Na sequência, Bruno José Barcellos Fontanella, psiquiatra e professor associado da UFSCar, falou sobre a oportunidade de ter publicado sobre ‘amostragem por saturação’ no MCQ em suas contribuições teóricas e procedimentos. Claudinei José Gomes Campos, enfermeiro e professor colaborador da Unicamp, falou sobre coleta de dados no MCQ com entrevistas semidirigidas conduzidas por clínicos. Débora Bicudo de Faria-Schützer, psicóloga, psicanalista e doutora pela Unicamp resumiu a construção e aplicação dos ‘Seven Steps’ da Análise de Conteúdo Clínico-Qualitativa. E Rodrigo Almeida Bastos, por sua vez, enfermeiro e professor associado da UFPR, discorreu sobre o cenário bibliométrico dos estudos ‘quali’ na literatura internacional em Saúde.

“Professor-pai das gerações que se debruçarem sobre o estudo das vivências das relações intersubjetivas, transformando-as em instrumento de investigação, o professor Roosevelt Cassorla falou com brilhantismo desde a Psicologia Médica às investigações clínico-qualitativas fertilizadas pela Psicanálise e outras Ciências do Homem. O professor Bruno Fontanella, por sua vez, enumerou os fatores institucionais que proporcionaram condições para a construção intelectual do Método Clínico-Qualitativo, apontando o caldo de cultura para tal dentro da Unicamp, em particular no então Departamento de Psiquiatria da FCM, bem como na riqueza de possibilidades do Hospital das Clínicas da Unicamp. O professor Claudinei Campos contou que traz na memória as primeiras discussões no LPCQ na virada do século, tendo registrado o ambiente que culminou com a publicação de seu manuscrito ‘técnica de entrevista livre por clínicos’, também bem referenciada por pares na literatura. A doutora Débora de Faria-Schützer reportou sobre o nascimento da ideia do artigo teórico ‘Seven Steps’ da Análise de Conteúdo Clínico-Qualitativa, em que se procurou ressaltar a complexidade do nosso objeto de estudo: a subjetividade. Por fim, o professor Rodrigo Bastos contou sobre ter aceitado o desafio de fazer um survey sobre as caraterísticas metodológicas ‘quali’ presentes nos estudos de autores de artigos no PubMed, mapeando os itens definidores mais frequentes na produção, em certo período, publicado em inglês em revista SciELO”, resumiu Egberto Turato sobre os assuntos principais abordados durante a Mesa-Redonda 2.