Medicina de Família e Comunidade se reinventa e passa a integrar o curso de graduação

Enviado por Edimilson Montalti em ter, 05/12/2017 - 11:51

Ação é alinhada às novas Diretrizes Curriculares Nacionais

Em maio de 2012, durante a abertura das comemorações dos 50 anos da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, o médico Adib Jatene propôs uma reforma no ensino médico no qual o aluno ficasse dois anos no Programa Saúde da Família depois de formado e, somente após esse período, prestasse residência médica. “A função das escolas médicas – pelo menos as públicas – é formar médicos para atendimento da população”, disse Janete na época.

Em 2014, o Ministério da Educação (MEC) aprovou as novas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) de Medicina, em que propõe uma formação médica generalista, humanista e crítica com responsabilidade social e compromisso com a defesa da cidadania, dignidade humana e saúde integral da população.

De acordo com o parágrafo 5º do artigo 24 do capítulo III das DCN, os conteúdos curriculares e o projeto pedagógico dos cursos de graduação em Medicina devem contemplar atividades voltadas para a Atenção Básica e essas atividades devem ser coordenadas pela lógica da Medicina de Família e Comunidade.

Por conta das diretrizes curriculares que devem ser implantadas até o final de 2018 em todos os cursos de Medicina no país, a Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp trouxe o Programa Saúde da Família – que já existia na faculdade desde 2000 como programa de residência-médica – à graduação do curso de Medicina.

Com essa mudança, o programa passou a ficar vinculado ao Departamento de Saúde Coletiva da FCM e aumentou de tamanho com a contratação de novas médicas e com a realização de concurso para professor da disciplina. De acordo com o coordenador de graduação em Medicina da FCM, Paulo Eduardo Neves Ferreira Velho, a ideia é que a médico de família ajude a alinhavar o conhecimento dos alunos e dar uma aplicação mais prática quando eles entram para o internato médico, a partir do quarto ano.

“Em geral, os médicos de família são envolvidos com o que fazem e é essa paixão que queremos transmitir aos nossos alunos. Valorizamos também o conhecimento especializado, mas achamos importante buscar esse equilíbrio para que todo médico formado pela FCM tenha uma visão geral do paciente com competência técnica e comportamento ético”, explicou Paulo Velho.

O médico de família atende crianças, jovens, mulheres, homens e idosos. Ele é capaz de fazer um atendimento ginecológico, prescrever um receituário para doenças inflamatórias, integrar a atenção básica ao contexto social da comunidade e encontrar alternativas para viabilizar atividades de grupo que melhorem a cura ou recuperação do paciente.

Rubens Bedrikow é clínico geral e especialista em Medicina de Família e Comunidade e médico contratado do Departamento de Saúde Coletiva da FCM. Quando chegou em Campinas, em 2001, atendia adultos, fazia pré-natal, puericultura, visitas domiciliárias, reuniões de equipe e participava de atividades de educação permanente com Gastão Wagner de Souza Campos, então secretário de Saúde de Campinas.

“Fiquei encantado com o conceito de clínica ampliada e compartilhada, que valoriza o sujeito singular doente, convidando-o a participar de seu projeto terapêutico, considerando o contexto e o território, com valorização da longitudinalidade e do vínculo e responsabilização, buscando fazer com que o sujeito continue andando na vida mesmo quando acometido por uma doença”.

Desde 2012, Rubens exerce atividades de ensino em módulos do primeiro, quarto e quinto anos e como preceptor de residentes de Medicina da Família e Comunidade e Saúde Coletiva da faculdade. No ano passado, foi chamado pelos alunos para ajudar a criar a Liga de Saúde da Família e foi aprovado no concurso de professor da área de Medicina de Família e Comunidade.

“Meus planos são ambiciosos, assim como meus sonhos. Pretendo aumentar a integração da área de Medicina de Família e Comunidade com os Departamentos da faculdade, estimular pesquisas de iniciação científica, pós-graduação, residência-médica, preparar projetos de extensão, e promover ações com a Secretaria de Saúde de Campinas e os cursos de Enfermagem, Fonoaudiologia, Farmácia da Unicamp e outras instituições fora o país”, revelou Rubens que aguarda a homologação de seu concurso, que está contingenciado pela Universidade.

Um novo ciclo no ensino

A Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp tem o programa de residência médica em Medicina de Família e Comunidade desde o início da década de 2000. A precursora foi a professora Olga Maria Fernandes de Carvalho, recentemente aposentada. Desde sua criação, o programa ajudou a formar médicos de família e comunidade que estão trabalhando em diversos munícipios do país. Atualmente, o grupo é coordenado por Arlete Coimbra, Ana Franklin e Nair Lumi Yoshino. Por conta da mudança imposta pelas DCN, recentemente, juntaram-se à equipe as médicas Carina Almeida Barjud, Rachel Esteves Soeiro, Thais Machado Dias, além de Rubens Bedrikow.

É a partir do 4º ano do curso de Medicina da FCM que os alunos começam a passar pela disciplina de Medicina de Família e Comunidade. De acordo com Rachel Esteves Soeiro, os alunos chegam muito fragmentados nessa fase do curso. Até então, eles estudam a fisiopatogia separada da farmacologia e de outras especialidades que eles vêem nos ambulatórios.

Ao cairem num atendimento de rotina que acontece nas Unidades Básicas de Saúde pelas quais eles passam, muitos ficam inseguros de não conseguirem em 40 ou 50 minutos pensar no dignóstico e no tratamento.

“Ao longo do ano eles vão entendem que não existe só a hipertensão, o diabetes, ou a gestante. Ensinamos a fazer não só uma abordagem do paciente, mas do entendimento do que a doença é para ele – paciente – e a família. E quando fazem visita domiciliar, os alunos entram no contexto social e econômico da família e o entendimento deles extrapola a fisiopatologia. A mudança é impressionante”, relata Rachel.

Nair Lumi Yoshino contou o relato de uma aluna que até então não se identificava com os preceito e atuação da saúde coletiva. Ao passar pela disciplina de Atenção Integral à Saúde onde o programa foi inserido, o olhar e a atenção da aluna passou a ser outro sobre a possibilidade de seguir a carreira nessa área. “Para ela, o que fez a diferença foi o nosso grupo. A inserção dentro da graduação foi algo importante que começou no ano passado. De repende, olharam para a gente”, comentou Nair, emocionada.

Segundo Ana Franklin, é a partir desse momento que os alunos aprendem a trabalhar em equipe e, por vezes, trazem toda a realidade da comunidade para dentro da clínica, por meio de atividades na comunidade, como por exemplo a utilização de teatro para conscientização de problemas de saúde. “O impacto maior é no 4º ano do ensino médico. Conforme formos nos integrando com as outras áreas clínicas o reconhecimento será maior e conseguiremos mais espaço para crescer em outras frentes de ensino, pesquisa e extensão”, reforçou Ana.

Para Thais Machado Dias, no Brasil, as pessoas conhecem muito pouco sobre a especialidade Saúde de Família e, por vezes, confundem qual é a atuação do médico de família. “Estar dentro da graduação dá um nova dimensão para a especialidade que ainda não é tão estruturada quanto no Canadá e países da Europa. Estamos tirando um atraso histórico, seguindo uma diretriz internacional que potencializa a formação de um médico generalista”, disse Thais.

Uma das fortes expectativas com relação a essa mudança é esperada na residência médica. Arlete Coimbra, responsável pela especialidade de saúde de família – que funciona há 18 anos – espera um aumento de inscritos para o processo seletivo já a partir do próximo ano. O programa mantém oito médicos residentes e oferece, anualmente, quatro novas vagas.

“A imagem que as pessoas fazem do médico de família é aquele médico de pé no chão, que bate na porta da casa das pessoas. Você pode fazer a busca ativa de indivíduos que precisam de atendimento a partir da visita domiciliar. Isso é um modelo internacional e não local. O médico de família pode trabalhar em convênios, empresas, área rural, clínicas e outros lugares. Hoje, o mercado está aberto e buscando esse tipo de profissional”, revelou Arlete.

Homenagem e recomendação

No mês de setembro, aconteceu na Sociedade de Medicina e Cirurgia de Campinas, o II Simpósio Campineiro de Medicina de Família e Comunidade. Durante o evento, a professora Olga Maria Fernandes de Carvalho foi homenageada por sua atuação no desenvolvimento e consolidação do programa Saúde da Família. Recentemente aposentada da FCM, Olga gravou um depoimento em que relata sua chegada à Campinas para estudar Medicina e toda sua trajetória acadêmica e assistencial, além de contar como o Programa Saúde da Família começou.

“Em 2000, fizemos um programa em residência médica em saúde da família. Eu tive sorte de ter um grupo bom. Hoje temos ex-alunos que estão no Ministério da Saúde, em várias faculdades de medicina, outros contratados como professores ou médicos da FCM”, revelou Olga.

Entretanto, um dos grandes problemas enfrentados durante muito tempo, segundo a médica, foi a falta de candidatos para as vagas oferecidas pelo programa. “Entre atender um paciente no hospital ou perto da casa dele há um longo trajeto que o aluno precisa aprender. Se a inserção do programa na graduação conseguir cativar o aluno, ele vai se formar melhor e estará preparado para trabalhar em qualquer lugar”, comentou Olga.