Um ensaio clínico sobre fake news, por Mario Saad

Enviado por Camila Delmondes em seg, 06/05/2019 - 17:03

A Universidade visa à excelência na descoberta e na disseminação do conhecimento científico, tendo os seus acadêmicos os melhores padrões de integridade em pesquisa, ensino e avaliação. Para essa direção têm caminhado as principais universidades do mundo nos últimos 30 anos, com a implantação de Escritórios de Integridade em Pesquisa para a difusão de boas práticas em pesquisa e conduta ética.  

As instituições de ensino e pesquisa em nosso país começam a se dirigir para o mesmo caminho. É assim, com muita felicidade e sentimento de gratidão, que recebo a notícia de que, agora, também a Unicamp, passará a contar com uma infraestrutura dessa magnitude, no apoio e respaldo da comunidade científica.

Refletindo sobre as intempéries pelas quais passei nos últimos quatro anos, me pergunto como foi possível que nós, pesquisadores brasileiros, sobrevivêssemos ao nosso trabalho, até o momento, sem uma estrutura desse porte no âmbito das universidades, considerando a realidade do desenvolvimento científico nacional?

Como numa espécie de ensaio clínico, sendo eu próprio, a cobaia, compartilho agora com os meus pares de academia, o drama de precisar provar que a integridade de seu trabalho é a razão de ser de seu próprio trabalho. Uma tarefa árdua, penosa, por vezes exaustiva e desanimadora, mas que com o empenho e dedicação, sobretudo daqueles que estão ao seu lado na bancada, pode, sim, ter um final feliz.

(...)

Introdução: Em meados de 2015, as revistas Diabetes, Plos One, Plos Biology, Critical Care e Diabetologia receberam denúncias anônimas apontando possíveis erros em figuras de meus manuscritos, sugerindo manipulação de imagens.

Objetivo: Demonstrar que as denúncias apresentadas às revistas científicas eram infundadas e que eventuais erros involuntários não podem ser confundidos com manipulação de imagens ou fraude em pesquisa.

Medotologia: (1) Responder, prontamente, aos questionamentos das revistas, enviando os dados originais para demonstrar a falta de fundamento das denúncias, reconhecendo sem prejuízo dos resultados, que em alguns poucos casos os trabalhos poderiam apresentar erros de editoração eletrônica e não de ‘manipulação de imagens’; (2) Demonstrar que a maior parte das denúncias não apresentavam quaisquer fundamento, ou seja, os erros apontados nunca existiram; (3) Resgatar os dados originais do processo de trabalho, demonstrando que no momento da montagem dessas figuras, na editoração do trabalho, e não na condução da pesquisa e análise de resultados, a troca de uma amostra (blot, em inglês) poderia ter eventualmente ocorrido.

Resultados e Discussão: A partir de análise comparativa com as imagens originais, foi constatado que, em poucas situações, de forma inadvertida, algumas trocas ocorreram, de maneira que tais achados foram encaminhados às revistas para a publicação de erratas, sem prejuízo da originalidade, mérito, método e interpretação ética dos resultados. Erros similares ocorreram e ocorrem com muita frequência em grupos de excelência do exterior, gerando correções ou retratações, indicando que esse é um problema de imprecisão humana na montagem de figuras complexas, e não de má conduta científica. Recentemente, a revista Journal of Clinical Investigation (JCI) avaliou, detalhadamente, 200 trabalhos de excelentes laboratórios do mundo, já aceitos para publicação. Antes da impressão final e, apesar de todo o cuidado recente, identificou que 21,5% desses trabalhos tinham erros em blots e 27,5% de erros em imagens, que foram então corrigidos, evitando futuras retratações1. Ao contrário do que ocorreu com os artigos analisados pela JCI, para os casos de erros de editoração eletrônica, os pedidos de correção em meus artigos não tiveram o mesmo tratamento. Após receber minhas respostas, as revistas solicitaram à Universidade que conferisse todos os resultados das publicações questionadas, por meio de uma comissão de cientistas externos à Unicamp, com pesquisadores do exterior. Foi unânime o parecer apresentado pela Comissão Externa de que as denúncias em relação aos meus estudos eram, de fato, infundadas. Ainda que apresentassem erros involuntários, os resultados das minhas pesquisas se mantinham inalterados. Grande perplexidade ao ter meu pedido de errata negado pela revista Diabetes, mesmo com o parecer favorável da Comissão. De forma unilateral, inspirando outras publicações a voltarem atrás em suas decisões de corrigirem os meus artigos, a Diabetes retratou três dos meus trabalhos. Um deles sem que houvesse sido apontada qualquer inconsistência. Tais retratações e novos pedidos de investigação foram encaminhados à Reitoria da Unicamp e, posteriormente, à Fapesp. Todos, anonimamente, sem que fosse possível identificar ou confrontar os meus dados com quem quer que fosse. Eis que o professor vê a sua vida virar um pesadelo! Tornei-me alvo de mais de uma dezena de Comissões Processantes Permanentes (CPPs). De pesquisador reconhecido internacionalmente, mergulhei no pântano vexatório acadêmico. Acreditem, amigos, ele existe. Em pequena fração de tempo me tornei persona non grata, um escândalo científico, o perfeito arquétipo do cientista maquiavélico. Ainda mais triste, um reles fraudador de conduta suspeita. Vejam, redigir tais palavras doeu menos que os olhares de reprovação a que fui submetido.

Não há mágoa em minhas palavras. Toda experiência na vida de um professor são dados que ele debruça-se sobre, pondera e tira algo de útil à própria curiosidade científica e à sociedade. Verificando a inconsistência das denúncias, bem como os seus desdobramentos em ‘fake news’ (em que o nosso tempo se tem mostrado tão fértil), os relatórios finais de todas – e aqui me permito frisar a palavra ‘todas’ – as CPPs confirmaram as conclusões de outras comissões: não houve má-conduta científica em nenhuma situação. Para mim e para todos os meus colaboradores – a quem eu serei eternamente grato pela batalha que aceitaram travar ao meu lado, de cabeça erguida – esse sempre foi o resultado lógico e esperado. Com 33 anos de vida acadêmica, mais de 90 orientações de iniciação científica, 70 mestrados e doutorados, 25 pós-doutorados e 250 artigos publicados com mais de 18.200 citações, sempre tive a certeza de que sairia mais forte do limbo que eu não desejo nem ao adversário mais indigno.

Publicar manuscritos de elevado nível científico envolve trabalho árduo e talento, que não é inato, mas desenvolvido através de muito estudo e dedicação. Pesquisa de qualidade, para ser publicada, necessita atravessar inúmeras barreiras científicas. Os pesquisadores talvez sejam os indivíduos mais intensamente avaliados nas sociedades modernas, continuamente respondendo a revisores ad hoc, editores e pares em geral e, por isso mesmo, necessitam de segurança e respaldo institucional.

A Unicamp firmará importante compromisso com a sociedade brasileira ao viabilizar um Escritório de Integridade em Pesquisa em sua estrutura, composto por pesquisadores de elevado nível científico, de diversos campos do saber. Nesse Comitê, cientistas avaliarão os casos com segurança, ao abrigo das pressões da imprensa e fábricas de fake news, distinguindo, com propriedade e facilidade, denúncias falsas e erros de editoração de má prática científica. Também poderão encarregar-se da redação dos relatórios em inglês, comunicando-se com as revistas de maneira ágil e profissional, independente de tradução juramentada. Tal Escritório será de grande valia para a sociedade, para imagem institucional e para os acadêmicos, que buscam à luz da ciência suas verdades, com ética e sem leviandade.

Muito cedo se aprende que na vida acadêmica é necessário resiliência. Passada a tormenta e restabelecida a justiça, sigo realizando com afinco, o que aprendi a fazer: desenvolver ciência, cuidar dos meus pacientes, dar aulas e estudar.  Essas são as tarefas para as quais me preparei a vida inteira e é nelas que encontro alegria e realização. Continuo publicando novos resultados em boas revistas e, ainda, republicando os artigos retratados dos quais sou o principal responsável. Se há algo de bom a tirar desse período de intensa sublimação a que fui submetido, posso afirmar, sem sombra de dúvidas, foi a de continuar sendo um ser humano cheio de esperanças.

Dedico esse artigo e aproveito para agradecer a solidariedade externada por colegas e amigos da Unicamp, da USP e de outras universidades do Brasil e do exterior, à FCM pela imparcialidade na condução dos casos e à Congregação da FCM por uma moção irrestrita de apoio.

Mario José Abdalla Saad
Professor do Departamento de Clínica Médica
da FCM-UNICAMP

Referência: 1Corinne L. Williams et al . J Clin Invest. 2019.