A obesidade é uma condição crônica, multifatorial e de alta prevalência, frequentemente acompanhada por alterações metabólicas e inflamatórias que contribuem para o desenvolvimento de diversas comorbidades. Evidências crescentes indicam que, mesmo após a perda de peso, alterações adversas no tecido adiposo podem persistir, sugerindo a existência de uma memória metabólica que favorece a persistência de disfunções associadas ao estado obeso.Neste contexto, o presente estudo teve como objetivo avaliar os efeitos da reversão dietética e da inibição da formação de produtos finais de glicação avançada (AGEs) sobre parâmetros morfológicos e metabólicos em um modelo experimental de obesidade transitória. Camundongos C57BL/6 foram alimentados com dieta hiperlipídica por 15 semanas para indução da obesidade e, posteriormente, submetidos à reversão dietética com ração normocalórica por sete semanas. Durante o protocolo experimental, parte dos animais foram tratados com aminoguanidina, um inibidor da formação de AGEs, na dose de 50 mg/kg/dia. A reversão dietética promoveu melhora significativa em variáveis como peso corporal, adiposidade, glicemia e perfil lipídico. Além disso, foi observada a normalização da morfometria dos adipócitos no tecido subcutâneo, com valores de área e perímetro comparáveis aos do grupo controle, embora disfunções metabólicas residuais tenham persistido, sugerindo um fenótipo metabolicamente alterado mesmo após a perda de peso. O tratamento com aminoguanidina promoveu redução completa da massa do tecido adiposo retroperitoneal e melhora significativa na morfometria dos adipócitos subcutâneos (área e perímetro), quando comparado ao grupo submetido apenas à reversão dietética, indicando que os AGEs contribuem para a manutenção de alterações associadas à memória metabólica, embora não sejam os únicos fatores envolvidos. Esses achados reforçam a hipótese de que dietas ricas em açúcares simples não apenas induzem obesidade, mas também favorecem a formação de AGEs, os quais podem promover alterações persistentes no tecido adiposo, mesmo após a normalização da ingestão calórica. Assim, este estudo contribui para o avanço do entendimento sobre os mecanismos moleculares envolvidos na memória metabólica e destaca a importância do controle precoce da obesidade, bem como a necessidade de estratégias terapêuticas mais eficazes para reverter completamente as alterações metabólicas associadas ao ganho ponderal.