Apresentação

APRESENTAÇÃO DO LaPSuS-UNICAMP

O Laboratório de Psicopatologia: Sujeito e Singularidade (LaPSuS-UNICAMP) tem por objetivo estudar a psicopatologia - disciplina nuclear da psiquiatria (BANZATO & ZORZANELLI, 2020), - sob a perspectiva do sujeito singular, tomado enquanto tal, em sua condição de sofrimento e de impedimento de dar continuidade a sua busca por realização subjetiva possível no interior do laço social.
Em sua vertente hegemônica, a psicopatologia é habitualmente definida como o estudo das doenças mentais em sua apresentação clínica e nos mecanismos de sua produção e desenvolvimento. Em contraste com essa visão, o que se busca aqui é redefinir a psicopatologia como “o estudo dos impasses subjetivos perturbando ou mesmo impedindo a realização possível de um sujeito singular no interior do laço social” (Pereira, 2019a). As pesquisas e os Seminários do LaPSuS-UNICAMP visam, assim, desenvolver e colocar sob exame crítico a elaboração de uma (Psico)Patologia (do Sujeito) psicanaliticamente orientada.
Aqui, a vinculação do sujeito singular ao laço social é decisiva: trata-se da concepção de “sujeito” tal como decorrente da herança psicanalítica de Freud e Lacan. Ou seja, um sujeito constituído enquanto tal através do “assujeitamento” ao campo da linguagem, logo da alteridade. Aquilo que constitui o mais íntimo de “si-mesmo” – incluindo a língua materna, a matriz histórico-cultural de sua vida simbólica e a organização de sua experiência corporal e erótica – tem como fundamento e ponto de partida a alienação no universo do Outro. Sob essa ótica, o “sujeito” de que aqui se trata não é o “indivíduo” decorrente da Modernidade, do capitalismo e das democracias liberais contemporâneas, mas antes o “parlêtre”, segundo o neologismo proposto por Lacan, para referir o ser decorrente da linguagem e da dimensão simbólica especificamente humana, enquanto fato social. Essa condição desnaturalizada do sujeito humano, própria, portanto, aos seres-fala (parlêtre), impede que o corpo – tal como se oferece na experiência clínica - seja simplesmente redutível à dimensão de “organismo”, uma vez que simbólico e erótico. É assim, pois, que nos associamos ao médico Eriximaco, em seu discurso no Banquete, no qual viria a definir a Medicina nos seguintes termos: “a ciência dos fenômenos de amor, próprios ao corpo” (Platão, 1991, p. 28)”.
Apoiados em autores clássicos da psicopatologia como L. Binswanger (1970, 1971), Viktor von Weizsaecker (2011), Erwin Straus (2000) e Henri Maldiney (1961), além daqueles mais especificamente ligados à psicanálise como S. Freud (1901/1987), J. Lacan (1966a), Pierre Fédida (1998) e Jean Oury (1987/2) buscamos explicitar a autonomia do conceito de “patologia” em relação àquele mais estritamente naturalista, biológico, de “doença”. Sob essa perspectiva, o padecimento humano deve ser concebido como fenômeno referido a um sujeito tomado enquanto tal, ou seja, enquanto ser desnaturalizado pela linguagem e por sua inscrição em um sistema simbólico culturalmente compartilhado. Essa conexão necessária entre “patologia” e “sujeito” nos obriga a introduzir certas especificações em nossa proposta.
Se colocamos entre parênteses o prefixo “Psico”, presente no termo (Psico)Patologia, isso se deve a seu caráter metafísico e intrinsicamente dualista. Correlativamente, devemos colocar também entre parênteses a expressão (do Sujeito), tornada redundante em nossa leitura, a qual concebe a “patologia” como fenômeno necessariamente relativo a um sujeito. Nesse novo sintagma empregado em nossa proposta – (Psico)Patologia (do Sujeito) – explicita-se o alcance último de tal concepção de “psicopatologia”: uma radical redefinição do próprio termo de “Patologia”, tão fortemente inscrito na tradição médica como “estudo das doenças”, mas que aqui passa a assimilar e a condensar os âmbitos semânticos implicados pelos elementos “psique” e “sujeito”. “Se falamos de uma ‘(psico)patologia (do sujeito)’ não o fazemos visando especificar uma modalidade especial de psicopatologia, mas como um recurso apenas provisório, até que sejamos capazes de demonstrar em que medida o pathos a que se refere qualquer patologia implica necessariamente, para além da eventual disfunção fisiológica ou da vivência subjetiva (Erlebnis) de sofrimento, os impasses de um sujeito único, em seus esforços de realização possível” (Pereira, 2019a, p. 834).
Sem recusar a priori a eventual participação de perturbações biológicas nos fenômenos psicopatológicos, em nossa ótica estas devem ser tratadas sob a rubrica de “nosologia”, mais apropriada à designação da “doença” enquanto alteração mórbida tomada em seu nível natural (physis, φυσισ), devendo, em consequência, ser abordada através dos métodos que lhes são próprios. A (psico)patologia, por sua vez, supõe um sujeito enquanto tal, o que implica que, mesmo diante de incontestáveis alterações biologicamente doentias da fisiologia cerebral, o plano propriamente psicopatológico deve ser concebido e descrito a partir de sua incidência subjetiva. Não se trata, contudo, de situar, à maneira de Jaspers (1913/1979), a psicopatologia como uma disciplina fenomenológica visando descrever a dimensão generalizável da experiência conscientemente vivida (Erlebnis) pelos humanos em suas condições patológicas1. O que se visa aqui é apreender a (psico)patologia enquanto fenômeno relativo a um sujeito único, enquanto impedimento no processo de realização desejante possível de um sujeito de linguagem e fala em sua singularidade. Sob essa perspectiva, existe uma descontinuidade epistemológica separando irredutivelmente os planos da nosologia e da patologia, a qual impõe métodos e éticas de abordagem específicos para cada uma dessas disciplinas e um esforço teórico constante para se conceber de forma pertinente as possíveis relações – não-lineares, portanto - entre eles.
Por extensão, essa definição da psicopatologia como fenômeno relativo a um sujeito singular, naquilo em que constitui impasse ou impedimento em sua realização possível como ser de fala (parlêtre, na terminologia de Lacan2), logo como ser desejante e social, permite conceber também como “psicopatológicos” fenômenos nos quais não sejam identificáveis quaisquer alterações fisiológicas. Correlativamente, a presença de alterações mórbidas do funcionamento biológico do organismo só pode ser propriamente descrita como “patológica” na medida de sua incidência no plano específico da subjetividade.
Com essa delimitação de (psico)patologia, a concepção de “sujeito” decorrente das obras de Freud e Lacan torna-se decisiva. Desta podemos extrair uma consequência clínica maior: quando a (psico)patologia é concebida como fenômeno próprio a um sujeito, são os impasses subjetivos que passam a organizar a ética e, consequentemente, a direção do tratamento e a política das ações ditas de saúde. Não apenas do tratamento psicanalítico, mas de qualquer prática clínica dedicada ao cuidado do ser humano sofrendo e embaraçado com sua patologia, ou seja, com suas possibilidades de realização enquanto sujeito singular indissoluvelmente “constituído pelo” e “inscrito no” laço social. Sob essa ótica, podemos considerar como extensível a todas as disciplinas clínicas, a proposição ética de Lacan, formulada em seu seminário sobre a angústia: “É certo que nossa justificativa, assim como nosso dever, é melhorar a posição do sujeito...”3 (Lacan, 1962-63/2004, p. 70).
Daí nos sentirmos fundamentados para propor uma nova definição da própria Medicina: “disciplina do campo do cuidado (Therapeia) cuja especificidade reside em colocar os conhecimentos da Natureza (Physis), em particular da Biologia, tecnicamente a serviço do objetivo ético de melhorar a posição do sujeito”.


1 “O objeto da psicopatologia é o fenômeno psíquico realmente consciente. Queremos saber o que
os homens vivenciam e como o fazem. Pretendemos conhecer a envergadura das realidades
psíquicas [seelischen Wirklichkeiten]. [...] Mas nem todos os fenômenos psíquicos constituem nosso
objeto. Apenas os ‘patológicos [sondern nur das ‚pathologische‘ ist unser Gegenstand]” (Jaspers,
1913/1979, p. 13).
2 “[l’homme] vit de l’être [...] : d’où mon expression de parlêtre qui se substituera à l’ICS de Freud”
([o homem] vive do ser [...]: daí a minha expressão do falasser que substituirá o ICS de Freud ") –
(Lacan, 1975/1987).
3 “Il est bien certain que notre justification comme notre devoir est d’améliorer la position du sujet”
- Lacan, Seminário 10, sessão do 12 de dezembro de 1962.
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